VERMELHO-SANGUE

Cineas Santos*
Quando a irrequieta Tânia Martins me comunicou o processo de destruição da cobertura vegetal da Serra Vermelha, julguei ter ouvido mal: 78 mil hectares? Confesso, um tantinho envergonhado, que, embora tenha estudado rudimentos da aritmétrica, não consigo imaginar com precisão a extensão da área.
Explico: Seu Liberato, meu pai, durante mais de 60 anos, cultivou uma gleba de 100 hectares, no sertão do Caracol. Terra árida, pobre, sem água e, para piorar, distante de quase tudo. A despeito disso, ao morrer, em 84, deixou praticamente metade da gleba intocada.
Seu Liba era um humilde lavrador que não fazia versos, não tocava viola, não assinava manifestos e, ao longo da vida, nunca ouviu falar de ecologia. Estudou exatos 3 meses (isso mesmo), tempo suficiente para aprender a assinar o nome e realizar as quatro operações matemáticas de que necessitaria ao longo da vida.
O velho sabia, por intuição, que a Terra é viva, por estar sempre prenhe de vida. Regando-a, às vezes, com o suor do próprio corpo, dela retirava o sustento da família sem jamais exauri-la. Tinha horror a queimadas, não caçava animais silvestres nem pescava. Plantava mandioca, milho, feijão e gergelim. Possuia três roças, que utilizava num sistema de rodízio, deixando uma delas "em descanso" por algum tempo.
Sua máxima preferida: "Quem guarda tem". Todo esse volteio tem um objetivo: demonstrar o quanto aprendi com aquele sertanejo que jamais pronunciou corretamente o meu nome (invenção de dona Purcina): chamava-me Cineso.
De repente, vejo na TV "doutores", "ambientalistas", "técnicos" e políticos de todas as plumagens defendendo o indefensável; justificando o injustificável: a destruição de um bioma que nem sequer foi devidamente estudado. Paradoxalmente, o nome do crime é "Energia Verde". Perpetrado pela JB Carbon S/A, o delito traz as impressões digitais do IBAMA que, em tese, deveria denunciá-lo, e a chancela da Secretaria do Meio Ambiente do Piauí.
As imagens mostradas pelo Globo Repórter (dia 26) são estarrecedoras, para dizer o mínimo: 300 fornos, enfileirados, transformando árvores centenárias em carvão vegetal. Para os responsáveis pela exploração da madeira, o projeto é ecologicamente correto e economicamente sustentável". No entender dos "sábios", não se trata de desmatamento e sim de "manejo sustentável" da floresta.
A área total a ser devastada compreende nada menos de 78 mil hectares; é tão grande que se estende por três municípios Curimatá, Redenção do Gurguéia e Morro Cabeça no Tempo. Trata-se, segundo pesquisadores, de uma "área de recarga", indispensável à alimentação dos mananciais que nascem na Serra Vermelha.
Por ser um bioma único (caatinga arbustiva), alguns dos animais que povoam a região não sobrevivem fora daquele habitat. A destruição da cobertura vegetal da Serra Vermelha trará uma série de implicações: empobrecimento do solo, assoreamento dos cursos d´água e comprometimento da fauna.
Com a palavra, as autoridades competentes. Os assessores da ministra Marina Silva e do governador Wellington Dias deveriam comunicar-lhes que quem tem o dever legal de proteger o patrimônio público e não o faz é, no mínimo negligente. E no caso, negligência é crime, crime imprescritível. O futuro não perdoa.
*Cineas Santos é cronista