SOS Serra Vermelha

Ajude a preservar a última floresta do semi-árido nordestino. Peça a criação do Parque Nacional Serra Vermelha. Mande um e-mail para o presidente LULA: www.presidencia.gov.br/presidente/falecom

5

de

fevereiro

Qual será o futuro dos filhotes dessa Inhuma?

CANTO INSUBMISSO

Rogério Newton 
 

Enquanto o leitor folheia o jornal, corre os olhos pelas páginas e se depara com as palavras que agora lê, uma floresta vira carvão. Ele não vê o crepitar da madeira, a fumaça, o fogo avermelhado, nem sente o calor dos fornos enfileirados. A extensa área já desmatada pelas motosserras, os pássaros assustados, os animais mortos, o cemitério de árvores empilhadas esperando a hora de serem lançadas ao fogo. As carretas que esmagam as poças de lama. Os homens cuja força é usada para o trabalho pesado da morte.  

Nada disso o leitor vê, mas pode ter visto as imagens que a televisão mostrou ou alguma fotografia no jornal. Cenas do inferno e do céu. Porque, ao mesmo tempo em que se instalou e funciona a todo vapor um campo de morte em plena floresta, a vida circundante desta mesma floresta revela-se para nós generosamente bela. Eu nunca tinha visto uma inhuma, nem mesmo sabia da existência dessa ave de plumagem azul escura, quase negra. Nunca tinha visto um maguari voando soberano e outros pássaros que a lente do cinegrafista captou.  

Quem viu a reportagem na TV e não se emocionou tem o coração tão duro como as muralhas de pedra da Serra Vermelha, entre as quais um rio de árvores nativas existe há séculos, abrigando as vidas da caatinga. Entre os paredões, nos lugares onde as motosserras passaram, ficou um cemitério de tocos, que vai servir para pastagem do gado ou plantio de soja. Deu pra ver bem o contraste entre a terra despida e sem graça e a exuberância do manto de árvores. 

Não se assuste, seu moço: isso é o sertão de rosas graciliânicas. A imensa lagoa de nome para nós ainda desconhecido não é um cartão postal. Não devemos permitir que seja. É apenas um lugar lindo onde se dá, com licença do poeta William, o congresso das águas, em que a pequena formiga vale tanto quanto o vôo da inhuma, mas os passarinhos, como diria outro poeta, são mais importantes que os senadores. 

Quando golpeava as teclas escrevendo esta crônica, que, se eu pudesse, transformaria em desespero, alguém me telefonou avisando que estava passando um debate na TV sobre o desmatamento. Fiquei assustado porque quase todos os debatedores se apegaram a tecnicalidades e defenderam mais seus pontos de vista, as instituições e as leis do que as florestas e a vida protegidas por elas. Esses senhores vêem o relatório tal, a resolução tal, publicada no Diário Oficial tal, mas não vêem a floresta. A exceção de um deles, ninguém apreciou, por exemplo, a casaca-de-couro, o arapaçu ou o tem-farinha-aí, nem o canto estridente do bando de curicacas no céu azul do Piauí. Não vi uma palavra de admiração ou afeto pelos seres belos, livres e selvagens, nem sobre a formosura e o mistério daquelas paragens. Por pouco, dois dos debatedores não gritaram: __ “Viva a lei! Viva o dinheiro! Abaixo a Vida!” 

 Há algo de surrealismo e nonsense nas cenas que a TV filmou, em que aparecem trezentos fornos enfileirados, a fumaça, o lamaçal na terra encharcada pela chuva, os caminhões cheios de carvão, tudo isso no meio da mata virgem. Os altos fornos das indústrias siderúrgicas precisam matar a fome. Por isso, devoram a floresta. Essa voracidade não é de hoje: já engoliu outras matas. Agora deseja a caatinga verde e virgem do sertão do Piauí. Depois, quando plantar o deserto aqui, sairá em busca de florestas cada vez mais longínquas, pois insaciáveis são os fornos gigantes. 

Ao acompanhar a coleta de assinaturas contra esse absurdo, vi nos olhos e nas palavras de muitas pessoas a indignação pulsando da “nobre cólera dos justos”.  Ouvi pessoas de todas as idades que não aceitam ver a floresta se transformar em cinzas. Para isso não tecem raciocínio enviesado ou falsamente brilhante. Não recorrem a obscuros artigos de lei, tabelas, gráficos, nem se perdem em “manifestações de apreço ao sr. diretor” Apenas têm afeto pela vida. 

Uma delas me disse que precisamos construir uma nova civilização em que homem e natureza se apóiem mutuamente. Como? Ela não sabe exatamente, mas tem pistas: nessa civilização não pode faltar o vôo da inhuma e do maguari pairando sobre a lagoa desconhecida ou sobre o manto verde que abriga todos os seres, nossos irmãos, dentre eles, as curicacas de canto estridente e insubmisso do clarazul céu do Piauí.

Arquivado em: Meio ambiente I

3 Comentários »

  1. Comentário por Biblioteca Comunitária Casa do Livro — terça-feira, 6 de fevereiro de 2007 (08:10:39)

    E vamos continuar a assistir a essa implacável destruição? Onde os Órgãos de assistência à natureza, onde os soldados da biodiversidade? IBAMA, órgão governamental de preservação??? – Ou será IBAMA – Indústria Brasileira da Mata Amarga.
    Por que esse desmatamento, a quem interessa financeiramente. Quem está ganhando com isso? É preciso que se faça algo, não podemos permanecer passivos, vendo a nossa destruição.
    O próprio combate à mudança de clima no mundo começa agora, vamos impedir essa barbárie.

  2. Comentário por cl — terça-feira, 6 de fevereiro de 2007 (10:10:46)

    y pues hablan del calientamento de la tierra!!! esa es una barbarie

  3. Comentário por Fernanda — sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007 (10:55:19)

    Sou piauiense e biologa, e sinto-me de mãos atadas, procuro alternativas, meios que eu possa ajudar, mas o capitalismo em que vivemos é tão vergonhoso e burro que chega a esse ponto. Envergonho-me de ser parte desta sociedade onde poucos dão valor ao que nos mantem vivos, e que caminhamos para a extinção a passos largos e apressados. A barbarie se torna pior por que a vítima não poder se defender, e não adianta invocar orgãos, se a sociedade não tomar a frente na luta pela natureza não vai dar em nada…

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